
O QUE A NATUREZA FARIA?
A biomimética é uma prática ancestral, com raízes no conhecimento dos povos nativos e tradicionais, que acumularam muitos anos de práticas no cuidado da vida e de seus territórios, que aprende e imita as estratégias usadas pelas espécies que seguem existindo até os dias de hoje.
Propagada pela bióloga Janine Benyus, a biomimética pode ser entendida como uma filosofia ou metodologia de design, também conhecida como Design Bioinspirado, Tecnologia da Natureza ou Biomimicry Thinking, que oferece uma compreensão empática e interconectada de como a vida funciona e onde a humanidade se encaixa nesse funcionamento. Após bilhões de anos de pesquisa e desenvolvimento, as espécies que falharam, tornaram-se fósseis, e o que restou conhece os segredos de toda a nossa sobrevivência.
Ao olhar para a natureza como mentora, medida e modelo, ela tem como objetivo criar produtos, processos e sistemas, incluindo novas maneiras de viver em sociedade, que resolvam nossos principais desafios, de forma sustentável e em solidariedade com todos os demais seres e formas de existência na Terra.
Para conseguir alcançá-los, os passos são: a EMULAÇÃO das estratégias de continuidade da vida; a RECONEXÃO com a natureza, a partir do entendimento de que somos natureza e interconectados ao nosso meio e ecossistemas; e a ÉTICA, que busca compreender como a vida funciona e que os caminhos para alcançar soluções regenerativas variam, mas o resultado final deve ser sistêmico e pautado no princípio da continuidade da vida.
Uma das coisas mais bonitas da filosofia da biomimética é que ela nos permite não apenas aprender com a sabedoria da natureza, mas também estabelecer processos de cura de nós mesmos e deste planeta.
ÍCONES DA BIOMIMÉTICA
Olhar para a natureza como uma fonte de inspiração, não é nenhuma novidade. Essa prática sempre esteve presente nas sociedades pré-industriais. Para os povos nativos e indígenas ao redor do Planeta, a natureza é mãe, mestra e é parte da vida.
Mas há quem considere ser a seda um dos primeiros exemplos de criação inspirada na natureza na história da humanidade. Seu uso começou por volta de 4000 aC e se tornou um dos primeiros tecidos inventados pelo homem. Todos sabem que a seda vem dos bichos-da-seda e os chineses foram a primeira civilização a aprender com o verme brilhante.
Foi com o advento da industrialização, que as sociedades ocidentais foram, em sua prepotência antropocêntrica, se desconectando da natureza e se relacionando com ela como fonte de recursos e ambiente de lazer.
Na década de 1950, o biofísico e polímata americano Otto Schmitt desenvolveu o conceito de inovação inspirada na natureza, a biomimética. Durante sua pesquisa de doutorado, ele desenvolveu o “gatilho Schmitt” estudando os nervos da lula, tentando projetar um dispositivo que replicasse o sistema biológico de propagação do nervo.
Mas o termo se popularizou mesmo quase três décadas depois, em 1997, pela bióloga e escritora norte-americana Janine Benyus com a publicação do seu livro “Biomimética: Inovação inspirada na natureza.”
Hoje os inventores se voltam cada vez mais para a flora, a fauna e os ecossistemas em busca de inspiração e conhecimento para lidar com as diversas questões relacionadas às mudanças climáticas, à degradação e poluição ambiental, tornando-se uma necessidade de sobrevivência. Empresas imensas têm feito uso da biomimética para resolver problemas intratáveis que a natureza já resolveu – como remover o sal da água, criar materiais leves e super resistentes, evitar concussões de impacto ou projetar estruturas urbanas que usem menos energia, para citar apenas alguns exemplos.
Os principais tipos de abordagem biomimética são: copiar um modelo e forma; copiar um processo, como a fotossíntese em uma folha; e a emulação em nível ecossistêmico, como construir uma cidade inspirada na natureza.
Com isso, a biomimética está gerando centenas de patentes em design de produtos, processos e soluções potencialmente sustentáveis, além de centenas de milhões de dólares em investimento.
Alguns dos principais ícones da inovação inspirada na natureza:

1. O voo
Olhar para a natureza como uma fonte de inspiração, ou a biomimética não é nenhuma novidade. Ela sempre esteve presente nas sociedades pré-industriais. Para os povos nativos e indígenas ao redor do Planeta, a natureza é mãe, mestra e é parte da vida.

2. O velcro
Um dos exemplos mais famosos de biomimética, o velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral a partir da observação de como as sementes de bardana grudavam em suas meias e em seu cachorro quando caminhavam pelas montanhas.

3. Shinkansen, o trem bala japonês
A primeira série do Shinkansen Bullet Train, produzida pela West Japan Railway Company, já nasceu sendo o trem mais rápido do mundo, alcançando 321 km/h.

4. O edifício Eastgate Centre, em Harare no Zimbábue
Geralmente pensamos nos cupins como destruidores de edifícios, nunca ajudando a projetá-los. Mas o Edifício Eastgate, um complexo de escritórios em Harare no Zimbábue, foi projetado pelo arquiteto Mick Pearce com um sistema de ar condicionado inspirado nos cupinzeiros da espécie Macrotermes michaelseni, que se auto resfriam e mantêm a temperatura dentro de seu ninho com variações de apenas um grau de dia e de noite, enquanto as temperaturas externas podem variar de 42 °C a 3 °C.

5. As turbinas de geração de energia eólica
A baleia Jubarte, espécie muito presente na costa brasileira, tem de 12 a 15 metros de comprimento e pesa cerca de 30 mil kilos. Para encurralar e capturar o krill, sua principal fonte de alimentos, ela nada em círculos que produzem redes de bolhas de apenas 1,5 metro de diâmetro. Essa estratégia de captura altamente eficiente se deve principalmente às suas nadadeiras, que têm protuberâncias grandes e irregulares chamadas tubérculos em suas bordas dianteiras.

6. Dispositivos rotativos, como ventiladores, hélices, turbinas
Ventiladores e dispositivos rotacionais são parte importante dos ambientes construídos pelo homem. Estão espalhados em todos os lugares: computadores, aparelhos de ar-condicionado, sistemas de água, ar e eletricidade do qual todas as cidades dependem, e representam um gasto imenso de energia.

7. Os vidros seguroS
Para evitar que os pássaros atravessem e destruam as suas teias, as aranhas as tecem com fios de seda chamados de “estabilimento” que refletem os raios UV.
Evolução da biomimética
Ainda que limitada, pois parte de um ponto de vista ocidental, que exclui as inúmeras criações dos povos nativos inspiradas na natureza, achamos válido trazer essa linha do tempo do desenvolvimento da biomimética no mundo pois ela nos mostra como cada vez mais pessoas e empresas estão se apropriando e descobrindo o potencial da reconexão e do aprendizado com a evolução da vida na Terra.
(Fonte: “Biomimetics: A Short History. Why imitating nature’s greatest tricks is the future of engineering.” Por Jake Scobey-Thal)














